Por mais forte que a raiz seja, tuas sementes ainda podem voar

Sempre fui criada pelos meus pais para me tornar uma mulher livre e independente, principalmente de homens. Só que agora que cresci percebi que essa criação de independência e liberdade em relação aos homens foi substituída pela criação com dependência na família.

Família é a base de tudo, e não posso em nenhum momento reclamar da criação que a minha família me deu e a forma como fui/sou amada por eles. Meus pais e meus avós deram total atenção, carinho, amor, respeito e bons ensinamentos para mim e meus irmãos. Se tem algo que não posso nunca reclamar é da falta de atenção ou ausência de algum deles. Muito pelo contrário, sempre foram muito presentes e solícitos.

Meu pai sempre foi muito trabalhador, tendo inclusive trabalhado em cinco empregos em uma época de sua vida. E se você me perguntar: “Mas teu pai era presente mesmo trabalhando tanto?” E a minha resposta é: Sim! E muito. Confesso que o fato de eu sempre acompanhá-lo em seu trabalho, ajudou para que ele fosse presente. Mas mesmo que eu não o acompanhasse, ele sempre tinha tempo para mim e meus irmãos.

Lembro-me do nosso ritual de caminhada, jantares e passeio de bicicleta em família, missa no dia de domingo, entre tantas outras coisas. E entre todas as coisas, a melhor de todas era/é a disponibilidade e paciência para escutarem tudo o que nós tínhamos/temos a dizer.

A única coisa que faltava era a liberdade para saída entre amigos e viagens. Ah, isso era chato. E como! Ver seus amigos saindo para festinhas, se juntando no feriado e nas férias para viajarem com a família de algum deles, você sendo convidada e seus pais não deixarem. Ou então a viagem de sua formatura e você não ir. Tudo bem, você fica triste, bolada, puta da vida, mas você tem que obedecer, afinal, são seus pais e além de respeitá-los, acaba relevando porque entende que eles só querem o melhor para você.

Mas aí você cresce, se forma e continua a morar com eles. E teu pai prefere ver você parada em casa, sem fazer nada, do que sair de casa, não digo para o mundo a fora, apenas uma cidade vizinha, pelo simples fato que prefere ter você por perto, pois assim sabe que você estará segura. Até porque, convenhamos que o mundo não é um mar de rosas para as mulheres andarem sozinhas por aí. E você entende a atitude de seu pai.

É muito amor, eu sei. Você fica feliz por saber que o simples fato de você existir deixa alguém feliz, e que o amor é tão grande que o fato de você não ter um emprego fixo e não poder ajudar tanto com as despesas em casa não tem importância, afinal, o importante é a sua presença por perto.

Mas chega uma hora que você tem que dar um basta.  Não porque você os ama menos, mas porque a vida te chama, você não aguenta ficar mais parada. A vida clama por movimento. Apesar de você ter uma raiz forte, as suas sementes insistem em alçar voo. E hoje você viaja para procurar novos lugares, e se apaixona pela cultura, as diversas possibilidades que teria em cada cidade que visita, as pessoas e amigos que faz no caminho… E percebe que viajar é parte do teu ser.

E a única coisa que espera deles agora é apoio emocional, afinal para você, por mais independente que tenha se tornado, a tal dependência pela família insiste em colocar em dúvida cada possibilidade nova de mudança e todos os teus planos que insistem ser longe de casa. E você espera que eles continuem te amando do mesmo jeito que sempre amaram, e talvez ainda mais agora, pois você descobriu o que realmente quer.

Pai e mãe, obrigada por me fazer uma mulher livre e independente, mas desculpe se entendi que essa independência me fez procurar por novos horizontes e culturas diferentes que me levam para longe de vocês e toda essa dependência que vocês esperavam de mim.

Mas vocês me fizeram forte e destemida. Obrigada por isso! Prometo que sempre voltarei para casa, por mais longe que a vida me levar. Só por favor, não me amem menos por isso.

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